Estás em casa, no sofá, depois do trabalho, exausto. Sabes que viver não é isto, mas tens que ganhar dinheiro à mesma. Podes ser sonhador, e estas a trabalhar para concretizar o teu sonho, ou mais humilde, desejando apenas amealhar algum para seguir uma vida normal. Mas estás exausto, e a tarefa mais importante neste momento, é descansar, a segunda mais importante a seguir a essa é manteres a noção de que, o que estás a fazer que te deixou assim, é temporário, é algo que um dia melhorará. Engoles sapos, aturas gente insuportável, que só se mantém insuportável porque há sempre gente como tu que tem de os aturar…se bem que havia de ser giro vê-los enrascados numa situação que dependesse dos seus excelentes caracteres…uma situação como a tua.

E só o facto de estares a pensar nisso, faz com que sintas uma pressão que se abate sobre ti, uma pressão que quer que tu mudes, que desistas de ser quem és, a todo o custo, em prol do bom funcionamento da sociedade em que vives. Não digo que mudar seja mau, muito pelo contrario, mudar é essencial, sem isso não consegues aprender. Mas se é para mudares quem és, que seja para melhor, que seja para expandir os teus horizontes intelectuais, para te abrires a novas informações que só te vão fazer bem porque quanto mais informação tens, maior é o panorama que vislumbras. Mudar para pior? Desistires dos teus sonhos porque agora tens é que te fazer à vida e já não há tempo para essas criancices, sendo tu então obrigado a fechares os teus horizontes, e a formatares-te em algo mais padronizado e socialmente aceite? Inserires-te nesses compartimentos que todos conhecemos e que nos ajudam a perceber o ser simples que és e como contribuis para o grupo, como “o futebolista” “o intelectual” “o cientista” “o operário” “o médico” “o mecânico”… Não me parece lá grande ideia. Mas a pressão está lá. Está tão lá, desde tão cedo na tua vida, que não dás por isso…e se não dás por isso, é porque resulta, é que vendo bem, és recompensado por ser um menino bonito. És aceite e isso sabe-te bem. Tens acesso fácil a grupos sociais adequados à tua fasquia mental, onde te vais dar bem e viver bons momentos.

Mas será saudável?
Lá porque algo resultou, não te diz que é a coisa certa a fazer.

Todos nós temos um potencial enorme. Se nos for dado espaço para o expandir, claro. E dá-me pena olhar para tanto potencial perdido. Tantas pessoas tão alheias às suas próprias capacidades porque se limitam a ser o compartimento onde se inseriram. Acho triste termos que ir a procura do prazer em drogas, álcool, viagens às Maldivas, sexo remunerado…só porque não sentimos o prazer genuíno no nosso dia a dia.

Trabalhamos para outros enriquecerem, a troco de uns tostões para irmos comprar um doce de vez em quando para nos sentirmos melhor com a futilidade das nossas tarefas. Nós não vivemos num grupo onde cada tarefa é importante, não te iludas. Vivemos num grupo onde as tarefas importantes têm as vagas preenchidas, sendo então necessário tratar o excedente humano como os estúpidos que não conseguiram, dando-lhes trabalhos estúpidos como ser vendedor de loja numa grande superfície, um saco de boxe disfarçado de pessoa com um headset nos call-centers, um ridículo vendedor D2D. A maior sacanice no meio disto tudo ainda é a ideia que nos impingem da hipótese que TODOS NÓS temos de chegar a uma posição confortável se formos mesmo bons! Hah…lol…

Mas se não é isto, se tudo está mal…então o que é que é suposto ser isso da vida?!

Simples.

A vida é uma coisa gira, é uma reorganização automatizada de matéria pré-existente no universo com o único objectivo de perpetuar esse mesmo comportamento. A noção que temos da nossa própria existência não é mais do que uma ferramenta necessária para a nossa gestão, porque chegámos a um nível de complexidade tal que precisamos da ilusão do “eu” para nos governarmos como indivíduos e como um grupo. O que nem é bom nem mau, é inevitável. Somos matéria. Química. Biologia. Linguagem. Cultura.

E devíamos estar para lá de gratos por nos ter sido dada a oportunidade de experienciar o universo deste modo humano. Tudo isto foi-nos dado aleatoriamente. Somos os olhos do planeta, os ouvidos e tudo mais, somos feitos do que este planeta nos oferece, átomo a átomo, e ao mesmo tempo estamos separados dele. E podemos sair dele e ir vaguear para outras esferas. A nossa existência só está limitada, porque temos esta característica de constante renovação, reutilizando matéria continuamente para não sobrecarregar a fonte…e ainda assim, temos mutações genéticas que nos fazem evoluir.

Não era melhor aproveitarmos esta tão limitada existência que temos? Pararmos de ser sacanas uns para os outros? Era.

Mas não há muito espaço de manobra para isso. Vivemos no mundo que construímos baseado na nossa burrice e preconceito e somos obrigados a participar nele, para não irmos viver semi-nús para a selva. Somos uns macacos inteligentes que gostam de aprender e consomem informação a potes, mas vivemos num mundo onde o conhecimento tem acesso limitado e está disponível apenas aos que têm poder suficiente.

E eu sou um macaco chateado com isso.
Mas é na boa, a internet é fixe, as ideias estão a ser partilhadas, a humanidade está a unir-se de uma maneira completamente diferente. É crença minha que estamos a um passo de nos ligarmos mais intimamente, que através da tecnologia vamos poder partilhar as nossas mentes e as nossas ideias directamente. Também acredito que estamos a um passo de nos separarmos uns dos outros. Porque a evolução continua, e é inevitável chegarmos a ter conhecimento suficiente para alterarmos os nossos corpos e os nossos genes, havendo alguns de nós que querem optar por muda-los, mudando os parâmetros da nossa existência, enquanto outros manter-se-ão como estão…e até outros que poderão seguir um caminho completamente diferente. Acredito numa convergência eminente, proporcionada pela tecnologia, e posteriormente numa divergência, porque não somos todos donos de todos, e a partir do momento em que conseguimos mudar a nossa humanidade, não somos obrigados a pertencer à humanidade já existente.

Agora somos a única espécie consciente no planeta, e as vezes senti-mo-nos sozinhos por isso. Mas no fundo, acho que somos uma base. Uma base para vários caminhos diferentes. Acredito num futuro longínquo onde somos uma família de varias espécies, derivações da mesma base, a base humana.

E está na altura de nos deixarmos de mesquinhices. De deixarmos de julgar os outros por serem diferentes e de aceitarmos essa diferença de todos nós. Porque já somos todos espécies diferentes, com culturas diferentes. Só nos unimos porque temos todos dois braços. E já é altura de pararmos com isso. De derrubar algumas normas que não se adequam a todos, e de deixar quem quer ser diferente, ser diferente, porque sabe-se lá…se não virá dessa diferença, uma boa ideia.

E é bom que resolvamos isso cedo…porque pra já, a diferença é cultural. E se isto está como está assim, imaginem no que o mundo se irá tornar se mantivermos esta mentalidade e se nos depararmos com diferenças biológicas. Está na altura de mudarmos esse hábito…cagarmos para essas diferenças todas…pararmos de dar tiros uns nos outros…e vivermos esta coisa tão preciosa que é a nossa frágil existência. Enjoy the ride.