Algo está errado.
É uma situação com que nos deparamos todos os dias, os problemas são uma constante. É tão constante que ás vezes até nos faz fechar os olhos a isso. Torna-se um habito, um reflexo condicionado, uma protecção à nossa sanidade mental. Há que ganhar tomates e seguir em frente…é esse o espírito.

Mas não me convence. O hábito que nos mantém vivos acaba por nos adormecer por dentro, confortavelmente. Cria-se um pavor a tudo o que nos afasta desse ninho protector. Quem ameaça esse conforto é apontado como infantil, deprimido, até demente…”é uma fase…já lhe passa”…porque o que interessa é ser feliz, e isto é o que dói mais, não há pior que ser apontado como desinteressante.

Algo está errado com isto.

Só serve para continuarmos a viver muito atarefadamente, muito embrulhadinhos nas nossas coisas porque se nos atrevermos a levantar a cabeça, vamos parar à margem, acabamos afastados do resto por sermos demasiado enfadonhos e portadores das “más vibrações” que vão estragar os sorrisos de plástico ao resto da malta.

“Não pode ser!! Essa agora, queres distrair-me? Tirar-me da pose automática que arranjei? Nem pensar! Logo agora que consegui apanhar o jeito a isto da proactividade e da boa apresentação? Não, eu esforcei-me para isto, não podes menosprezar o meu esforço…ALIAS, porque é que não te esforças também? Falta-te é isso! Olha-me este, vem aqui agora todo tristinho a desestabilizar…eu já passei por isso pá! Passei, e segui em frente, e agora vês onde estou? A trabalhar e a ter a minha vida normal e alegre…muito muito alegre….por fora, que é onde a alegria deve estar, que é para inspirar os outros a seguir o mesmo caminho que eu…porque eu esforcei-me! Vivo a minha vida a dar o litro, com a cenoura da classe media lá a frente para me inspirar e com o esforço todo lá a trás para me reconfortar quando a cenoura estiver podre. É isto que o meu esforço vale! Faz de mim, EU! Eu sou o meu esforço, e nem tu nem ninguém pode apontar o dedo ao meu esforço, porque não foi em vão porra!! É o meu esforço! O meu tesouro! É eu… E mais! O mundo funciona assim, não sabes? Toda a gente faz o mesmo! E vale a pena! Olha o meu LCD! O meu carro a prestações! A minha nespresso! O meu computador que uso para ver filmes no iutube do que já vi na televisão mas achei piada! Vendo bem…eu já sou classe media…Tenho tanta coisa, net com bites e baites a dar c’um pau, aquele comando que da para fazer pausa enquanto vou ao frigorífico buscar um pedaço daquilo que me vai matar no futuro e que me pôs estúpido no passado e gordo no presente! Classe media! É isto! É claro, se não fossem dois ordenados a entrar na casa, não havia nada disto…mas há! Olha, se calhar falta-te é isso, é alguém para partilhar contigo todas estas coisas boas, por isso é que estás tristinho! Deixa lá…isso passa, eu compreendo.”

Sou eu que estou mal? Sou eu que ainda não percebi como o mundo realmente é, e tenho esta atitude de dissidente por ter medo de abandonar a adolescência? Será que tenho de crescer?? Mas já tenho alguma idade…já devia ter acontecido…o que é que há de errado comigo? É comigo não é? Sou preguiçoso, talvez. Se calhar é isso…Mas já sei como dar a volta! Já que afinal eu sempre estive condenado pela minha predisposição genetica a ser assim…o melhor é parar com esta infantilidade de uma vez por todas e pronto…sigo a minha vida, esqueço as minhas ambições parvas, entro no sistema, o sistema entra em mim, e nem preciso de ter sucesso, mas ao menos serei aceite e terei companhia de certeza porque há um grande público a aderir a esta causa pelo que vejo. É isto!! Finalmente já percebi! Encontrei o meu ópio, e o meu problema afinal…era não saber que precisava de um. Hahah, uffa, que alívio…

Não.
Não!
É isto que é a vida? Trabalhar para comprar comida e todas as outras coisas que no fundo só servem para me manter enquandrado, saber o novo big brother da TVI, o novo palhaço dos ídolos, os belos prazeres de um café XPT-FUCKING-O em casa, um conhaque e um charuto no aniversário depois da churrascada…votar…votar, não em soluções mas em pessoas encarregues de tomar as decisões por mim porque eu trabalho a vida toda, chego a casa cansado e NÃO TENHO PACHORRA para me informar e tomar decisões por mim próprio. Mas acreditar na democracia e defende-la dos que dizem que não está a funcionar ou que não existe, e ainda assim argumentar que se não existe, é cá, porque deve estar naqueles países grandes onde nunca fui, ou num ponto distante da historia e que no fundo é aí que ela interessa. Longe no tempo, ou longe no espaço, mas lá, para eu ter uma breve ideia do que é…. Entreter-me e comentar o entretenimento que tive com os amigos? Todo o santo dia, até não servir mais para trabalhar, até transformar-me num lixo velho que só dá problemas e que quando cheiro a mijo ninguém me diz.

“”Há que pensar positivo!” …tretas. Há que pensar, ponto! A vida é uma corda-bamba e por isso não nos podemos dar ao luxo de sermos 60% felizes, 40% tristes…não, é preciso equilíbrio. Deste meu lado, vejo que a felicidade falsa anda a rondar os 80% da vida das pessoas, porque a prática leva à perfeição, já dizia o Chuck Norris.

Algo está errado.
E o que está errado é termos deixado de ser um país de pessimistas. Está errado pensarmos que isto era um mau hábito que os antigos tinham mas que agora está melhor, com o nosso “espírito ganhador” incutido pelas corporations e os seus CEO’s. Passámos de um país de “pessimistas” que sorriem a sério, que dão 50/50 à felicidade e à tristeza…a um país de fantoches que acham que o equilíbrio é estar sempre alegre de dia e bater na mulher à noite. Esse pessimismo antigo era o que nos dava sanidade…

Andes fodido e saber …que fodido e sorrir.