Natureza humana.

Sim, isto vai ser mais um post daqueles. Comprido, repleto de devaneios e impulsos de ultima hora que só vão dificultar ainda mais a leitura e compreensão dum texto desde já condenado a ser complicado ao abordar a natureza deste animal tão estranho que é….o homem. normal_Green-grass-and-water-drops_2

Mas comecemos com calma. Respirando fundo, colocando a nossa mente naquele estado mais calmo e lúcido. Como alguém que muito humildemente contempla o sol e os cheiros que brotam do chão, naquele momento mudo, depois da tempestade, antes da bonança.

Quando foi a ultima vez que estiveram aí? Nesse lugar da mente, só vosso. Feito por vocês, para vocês, e que derradeiramente vos define. Sem nada daquelas reacções automatizadas a que o dia a dia nos acostuma.

Isto digo eu convencido de que toda a gente tem um lugar desses. Bem, eu tenho.

Paro…respiro…contemplo…e estou lá. E sou, lá.

Sou.

O que eu mais desejava mesmo, era ser mais vezes. Ser sozinho, acompanhado, sentado, a correr. Ser constantemente. Não é ser eu, que tou farto do meu eu e de todos os problemas que ele me dá, não, quero ser. Não me comprometer, dizer sim quando sim, e não quando não. Isto não devia ser difícil!! Parece ridículo, SOU um SER humano, SOU mais esperto que o resto dos animais, SOU o que constrói casas e fabricas, e que brinca com a matéria com mestria e criatividade, SOU uma personalidade, a minha, o meu eu, SOU tudo e mais alguma coisa, e a única coisa que eu queria mesmo mesmo mesmo, era Ser. Só ser. Sem mais floreados e pedestais como o da “raça superior”, como se qualquer comparação fizesse algum sentido.

Afinal parece-me mais simples do que o que eu pensava. É só isto.

A solução inesperada.

Estás em casa, no sofá, depois do trabalho, exausto. Sabes que viver não é isto, mas tens que ganhar dinheiro à mesma. Podes ser sonhador, e estas a trabalhar para concretizar o teu sonho, ou mais humilde, desejando apenas amealhar algum para seguir uma vida normal. Mas estás exausto, e a tarefa mais importante neste momento, é descansar, a segunda mais importante a seguir a essa é manteres a noção de que, o que estás a fazer que te deixou assim, é temporário, é algo que um dia melhorará. Engoles sapos, aturas gente insuportável, que só se mantém insuportável porque há sempre gente como tu que tem de os aturar…se bem que havia de ser giro vê-los enrascados numa situação que dependesse dos seus excelentes caracteres…uma situação como a tua.

E só o facto de estares a pensar nisso, faz com que sintas uma pressão que se abate sobre ti, uma pressão que quer que tu mudes, que desistas de ser quem és, a todo o custo, em prol do bom funcionamento da sociedade em que vives. Não digo que mudar seja mau, muito pelo contrario, mudar é essencial, sem isso não consegues aprender. Mas se é para mudares quem és, que seja para melhor, que seja para expandir os teus horizontes intelectuais, para te abrires a novas informações que só te vão fazer bem porque quanto mais informação tens, maior é o panorama que vislumbras. Mudar para pior? Desistires dos teus sonhos porque agora tens é que te fazer à vida e já não há tempo para essas criancices, sendo tu então obrigado a fechares os teus horizontes, e a formatares-te em algo mais padronizado e socialmente aceite? Inserires-te nesses compartimentos que todos conhecemos e que nos ajudam a perceber o ser simples que és e como contribuis para o grupo, como “o futebolista” “o intelectual” “o cientista” “o operário” “o médico” “o mecânico”… Não me parece lá grande ideia. Mas a pressão está lá. Está tão lá, desde tão cedo na tua vida, que não dás por isso…e se não dás por isso, é porque resulta, é que vendo bem, és recompensado por ser um menino bonito. És aceite e isso sabe-te bem. Tens acesso fácil a grupos sociais adequados à tua fasquia mental, onde te vais dar bem e viver bons momentos.

Mas será saudável?
Lá porque algo resultou, não te diz que é a coisa certa a fazer.

Todos nós temos um potencial enorme. Se nos for dado espaço para o expandir, claro. E dá-me pena olhar para tanto potencial perdido. Tantas pessoas tão alheias às suas próprias capacidades porque se limitam a ser o compartimento onde se inseriram. Acho triste termos que ir a procura do prazer em drogas, álcool, viagens às Maldivas, sexo remunerado…só porque não sentimos o prazer genuíno no nosso dia a dia.

Trabalhamos para outros enriquecerem, a troco de uns tostões para irmos comprar um doce de vez em quando para nos sentirmos melhor com a futilidade das nossas tarefas. Nós não vivemos num grupo onde cada tarefa é importante, não te iludas. Vivemos num grupo onde as tarefas importantes têm as vagas preenchidas, sendo então necessário tratar o excedente humano como os estúpidos que não conseguiram, dando-lhes trabalhos estúpidos como ser vendedor de loja numa grande superfície, um saco de boxe disfarçado de pessoa com um headset nos call-centers, um ridículo vendedor D2D. A maior sacanice no meio disto tudo ainda é a ideia que nos impingem da hipótese que TODOS NÓS temos de chegar a uma posição confortável se formos mesmo bons! Hah…lol…

Mas se não é isto, se tudo está mal…então o que é que é suposto ser isso da vida?!

Simples.

A vida é uma coisa gira, é uma reorganização automatizada de matéria pré-existente no universo com o único objectivo de perpetuar esse mesmo comportamento. A noção que temos da nossa própria existência não é mais do que uma ferramenta necessária para a nossa gestão, porque chegámos a um nível de complexidade tal que precisamos da ilusão do “eu” para nos governarmos como indivíduos e como um grupo. O que nem é bom nem mau, é inevitável. Somos matéria. Química. Biologia. Linguagem. Cultura.

E devíamos estar para lá de gratos por nos ter sido dada a oportunidade de experienciar o universo deste modo humano. Tudo isto foi-nos dado aleatoriamente. Somos os olhos do planeta, os ouvidos e tudo mais, somos feitos do que este planeta nos oferece, átomo a átomo, e ao mesmo tempo estamos separados dele. E podemos sair dele e ir vaguear para outras esferas. A nossa existência só está limitada, porque temos esta característica de constante renovação, reutilizando matéria continuamente para não sobrecarregar a fonte…e ainda assim, temos mutações genéticas que nos fazem evoluir.

Não era melhor aproveitarmos esta tão limitada existência que temos? Pararmos de ser sacanas uns para os outros? Era.

Mas não há muito espaço de manobra para isso. Vivemos no mundo que construímos baseado na nossa burrice e preconceito e somos obrigados a participar nele, para não irmos viver semi-nús para a selva. Somos uns macacos inteligentes que gostam de aprender e consomem informação a potes, mas vivemos num mundo onde o conhecimento tem acesso limitado e está disponível apenas aos que têm poder suficiente.

E eu sou um macaco chateado com isso.
Mas é na boa, a internet é fixe, as ideias estão a ser partilhadas, a humanidade está a unir-se de uma maneira completamente diferente. É crença minha que estamos a um passo de nos ligarmos mais intimamente, que através da tecnologia vamos poder partilhar as nossas mentes e as nossas ideias directamente. Também acredito que estamos a um passo de nos separarmos uns dos outros. Porque a evolução continua, e é inevitável chegarmos a ter conhecimento suficiente para alterarmos os nossos corpos e os nossos genes, havendo alguns de nós que querem optar por muda-los, mudando os parâmetros da nossa existência, enquanto outros manter-se-ão como estão…e até outros que poderão seguir um caminho completamente diferente. Acredito numa convergência eminente, proporcionada pela tecnologia, e posteriormente numa divergência, porque não somos todos donos de todos, e a partir do momento em que conseguimos mudar a nossa humanidade, não somos obrigados a pertencer à humanidade já existente.

Agora somos a única espécie consciente no planeta, e as vezes senti-mo-nos sozinhos por isso. Mas no fundo, acho que somos uma base. Uma base para vários caminhos diferentes. Acredito num futuro longínquo onde somos uma família de varias espécies, derivações da mesma base, a base humana.

E está na altura de nos deixarmos de mesquinhices. De deixarmos de julgar os outros por serem diferentes e de aceitarmos essa diferença de todos nós. Porque já somos todos espécies diferentes, com culturas diferentes. Só nos unimos porque temos todos dois braços. E já é altura de pararmos com isso. De derrubar algumas normas que não se adequam a todos, e de deixar quem quer ser diferente, ser diferente, porque sabe-se lá…se não virá dessa diferença, uma boa ideia.

E é bom que resolvamos isso cedo…porque pra já, a diferença é cultural. E se isto está como está assim, imaginem no que o mundo se irá tornar se mantivermos esta mentalidade e se nos depararmos com diferenças biológicas. Está na altura de mudarmos esse hábito…cagarmos para essas diferenças todas…pararmos de dar tiros uns nos outros…e vivermos esta coisa tão preciosa que é a nossa frágil existência. Enjoy the ride.

O erro.

Algo está errado.
É uma situação com que nos deparamos todos os dias, os problemas são uma constante. É tão constante que ás vezes até nos faz fechar os olhos a isso. Torna-se um habito, um reflexo condicionado, uma protecção à nossa sanidade mental. Há que ganhar tomates e seguir em frente…é esse o espírito.

Mas não me convence. O hábito que nos mantém vivos acaba por nos adormecer por dentro, confortavelmente. Cria-se um pavor a tudo o que nos afasta desse ninho protector. Quem ameaça esse conforto é apontado como infantil, deprimido, até demente…”é uma fase…já lhe passa”…porque o que interessa é ser feliz, e isto é o que dói mais, não há pior que ser apontado como desinteressante.

Algo está errado com isto.

Só serve para continuarmos a viver muito atarefadamente, muito embrulhadinhos nas nossas coisas porque se nos atrevermos a levantar a cabeça, vamos parar à margem, acabamos afastados do resto por sermos demasiado enfadonhos e portadores das “más vibrações” que vão estragar os sorrisos de plástico ao resto da malta.

“Não pode ser!! Essa agora, queres distrair-me? Tirar-me da pose automática que arranjei? Nem pensar! Logo agora que consegui apanhar o jeito a isto da proactividade e da boa apresentação? Não, eu esforcei-me para isto, não podes menosprezar o meu esforço…ALIAS, porque é que não te esforças também? Falta-te é isso! Olha-me este, vem aqui agora todo tristinho a desestabilizar…eu já passei por isso pá! Passei, e segui em frente, e agora vês onde estou? A trabalhar e a ter a minha vida normal e alegre…muito muito alegre….por fora, que é onde a alegria deve estar, que é para inspirar os outros a seguir o mesmo caminho que eu…porque eu esforcei-me! Vivo a minha vida a dar o litro, com a cenoura da classe media lá a frente para me inspirar e com o esforço todo lá a trás para me reconfortar quando a cenoura estiver podre. É isto que o meu esforço vale! Faz de mim, EU! Eu sou o meu esforço, e nem tu nem ninguém pode apontar o dedo ao meu esforço, porque não foi em vão porra!! É o meu esforço! O meu tesouro! É eu… E mais! O mundo funciona assim, não sabes? Toda a gente faz o mesmo! E vale a pena! Olha o meu LCD! O meu carro a prestações! A minha nespresso! O meu computador que uso para ver filmes no iutube do que já vi na televisão mas achei piada! Vendo bem…eu já sou classe media…Tenho tanta coisa, net com bites e baites a dar c’um pau, aquele comando que da para fazer pausa enquanto vou ao frigorífico buscar um pedaço daquilo que me vai matar no futuro e que me pôs estúpido no passado e gordo no presente! Classe media! É isto! É claro, se não fossem dois ordenados a entrar na casa, não havia nada disto…mas há! Olha, se calhar falta-te é isso, é alguém para partilhar contigo todas estas coisas boas, por isso é que estás tristinho! Deixa lá…isso passa, eu compreendo.”

Sou eu que estou mal? Sou eu que ainda não percebi como o mundo realmente é, e tenho esta atitude de dissidente por ter medo de abandonar a adolescência? Será que tenho de crescer?? Mas já tenho alguma idade…já devia ter acontecido…o que é que há de errado comigo? É comigo não é? Sou preguiçoso, talvez. Se calhar é isso…Mas já sei como dar a volta! Já que afinal eu sempre estive condenado pela minha predisposição genetica a ser assim…o melhor é parar com esta infantilidade de uma vez por todas e pronto…sigo a minha vida, esqueço as minhas ambições parvas, entro no sistema, o sistema entra em mim, e nem preciso de ter sucesso, mas ao menos serei aceite e terei companhia de certeza porque há um grande público a aderir a esta causa pelo que vejo. É isto!! Finalmente já percebi! Encontrei o meu ópio, e o meu problema afinal…era não saber que precisava de um. Hahah, uffa, que alívio…

Não.
Não!
É isto que é a vida? Trabalhar para comprar comida e todas as outras coisas que no fundo só servem para me manter enquandrado, saber o novo big brother da TVI, o novo palhaço dos ídolos, os belos prazeres de um café XPT-FUCKING-O em casa, um conhaque e um charuto no aniversário depois da churrascada…votar…votar, não em soluções mas em pessoas encarregues de tomar as decisões por mim porque eu trabalho a vida toda, chego a casa cansado e NÃO TENHO PACHORRA para me informar e tomar decisões por mim próprio. Mas acreditar na democracia e defende-la dos que dizem que não está a funcionar ou que não existe, e ainda assim argumentar que se não existe, é cá, porque deve estar naqueles países grandes onde nunca fui, ou num ponto distante da historia e que no fundo é aí que ela interessa. Longe no tempo, ou longe no espaço, mas lá, para eu ter uma breve ideia do que é…. Entreter-me e comentar o entretenimento que tive com os amigos? Todo o santo dia, até não servir mais para trabalhar, até transformar-me num lixo velho que só dá problemas e que quando cheiro a mijo ninguém me diz.

“”Há que pensar positivo!” …tretas. Há que pensar, ponto! A vida é uma corda-bamba e por isso não nos podemos dar ao luxo de sermos 60% felizes, 40% tristes…não, é preciso equilíbrio. Deste meu lado, vejo que a felicidade falsa anda a rondar os 80% da vida das pessoas, porque a prática leva à perfeição, já dizia o Chuck Norris.

Algo está errado.
E o que está errado é termos deixado de ser um país de pessimistas. Está errado pensarmos que isto era um mau hábito que os antigos tinham mas que agora está melhor, com o nosso “espírito ganhador” incutido pelas corporations e os seus CEO’s. Passámos de um país de “pessimistas” que sorriem a sério, que dão 50/50 à felicidade e à tristeza…a um país de fantoches que acham que o equilíbrio é estar sempre alegre de dia e bater na mulher à noite. Esse pessimismo antigo era o que nos dava sanidade…

Andes fodido e saber …que fodido e sorrir.

:xapa música: Bob Da Rage Sense – Diários de marcos Robert

cover

Este é um bom álbum, eu não digo isto muitas vezes! Musicalmente é “ohh tao bom!!” sendo um hiphop cheio de jazz e soul…e jazz!

Vi algures numa review a caracterizar as obras de Bob Da Rage Sense como sendo “conscious Hip Hop”, o que é verdade, realmente este é o género que melhor caracteriza esta obra porque na maioria das músicas há sempre uma mensagem muito concreta e uma critica aguçada tanto à politica como ao estado das coisas, mas fez-me pensar nisso… é que para haver esse tal conscious hiphop, é porque houve uma necessidade de o destacar de outros generos de hiphop que não têm esta particularidade…(veio à cabeça uma colectânea de imagens cheias de bling e dentes com diamantes) …e isso faz-me concluir que, não gosto de unconscious hiphop! (e ohh se ele há por aí!)

Ah, e vendo bem, tecnicamente não existe unconscious hiphop. A natureza do hiphop é sempre a de criticar 0 ambiente que rodeia o artista. Crítica implica consciência…vai daí…pimbas! Infelizmente…é difícil passar um dia sem ouvir o outro “hiphop” aquele que certamente foi feito por alguém que acabou de ter uma embolia e que naturalmente se encontra inconsciente. Vidas…

—Este texto foi escrito com total desrespeito pelo acordo ortográfico em vigor…Hah!—

Palma de Buda

"Shaolin" by bidwell - deviantart

Pelos poderes da Palma de Buda

Construo este blog a partir do nada

Cidadão exemplar que vives na manada

Foge agora ou que algo te acuda.

É que eu sou quem tudo estuda

e que estorva a tua estrada

Pra veres que a tua vida muda

quando a vida vês desmascarada.

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